No dia 5 de novembro celebra-se o Dia do Cuidador Informal, uma data que, apesar de muitas vezes ignorada, tem um significado profundo e urgente. Em Portugal, são milhares os cuidadores informais – na sua maioria familiares, sobretudo mulheres – que, por amor ou por dever, dedicam-se a cuidar de um ente querido. Curiosamente, muitos desses cuidadores não se reconhecem como tal, embora desempenhem esta missão com intensidade e sacrifício diários.
Cuidar de alguém é um ato de profunda humanidade, repleto de recompensas, mas também marcado por enormes desafios. Acompanhar quem se ama traz um sentido de realização e propósito, mas acarreta igualmente um elevado desgaste físico e emocional, muitas vezes levando os cuidadores à exaustão e a problemas de saúde mental.
Neste Dia do Cuidador Informal, é essencial refletir sobre os cuidadores informais de meia-idade e mais velhos, grupo que os estudos indicam ser o que mais crescerá nas próximas décadas. Ao longo da minha vida pessoal, profissional e académica, tive a oportunidade de testemunhar a importância destes cuidadores e os inúmeros obstáculos que enfrentam, especialmente os cuidadores conjugais – maridos e esposas que, apesar da idade avançada, cuidam dos seus parceiros de vida.
Recordo-me de um testemunho particularmente marcante durante uma investigação que realizei, o qual reforçou em mim o propósito de dar voz a estes cuidadores. Um homem, recém-aposentado, partilhou como viu os seus planos para a reforma serem abruptamente interrompidos ao assumir o cuidado da esposa, acamada após um Acidente Vascular Cerebral. Com os filhos a trabalhar e a reforma da esposa insuficiente para uma vaga numa Estrutura Residencial para Idosos, ele assumiu o papel de cuidador, contando apenas com o apoio do Serviço de Apoio Domiciliário e a ajuda dos filhos ao fim de semana. Passava os dias sentado num banco de pedra no jardim, à espera dos horários dos cuidados e da chegada das auxiliares do Serviço de Apoio Domiciliário, para assim conseguir algum tempo para si. Confessou-me que começou a fumar mais, que se sentia perdido e que a sua vida parecia ter perdido o sentido.
Não sei o que aconteceu a este cuidador informal. Não sei se a esposa foi eventualmente institucionalizada, se ainda vive, se o cuidador sobreviveu ou se, ainda hoje, continua a cuidar.
É essencial que a sociedade desperte para a realidade dos cuidadores informais, pois é provável que todos nós, em algum momento, venhamos a ser cuidadores ou a ser cuidados. É vital assegurar uma boa qualidade de vida para quem cuida e para quem é cuidado. Muitos cuidadores enfrentam este desafio sem preparação, mas é urgente que a sociedade se mantenha atenta às suas dificuldades, não só durante o cuidado, mas também no período pós-cuidado. O luto dos cuidadores é uma realidade que merece ser encarada com atenção e sensibilidade por famílias, profissionais de saúde e a sociedade em geral.
O Dia do Cuidador Informal, portanto, não deve ser apenas uma ocasião para homenagens simbólicas, mas um ponto de partida para uma discussão séria e contínua sobre como a sociedade pode apoiar de forma concreta estes cidadãos. São urgentes políticas públicas de suporte efetivo, desde o reforço do estatuto dos cuidadores até à criação de programas mais acessíveis de apoio psicológico, financeiro e de descanso, conhecidos como cuidados de alívio. Para que o ato de cuidar não se transforme num fardo insustentável, é fundamental que o Estado assegure que os cuidadores informais não estão sozinhos nesta missão.
Reconhecer a importância do cuidador informal exige mais do que palavras; implica ações concretas e eficazes que garantam dignidade e qualidade de vida tanto para o cuidador como para quem recebe os cuidados. Afinal, cuidar é um trabalho essencial, e sem ele, muitas vidas ficariam desamparadas. Que este Dia do Cuidador Informal seja um momento de reflexão sobre o que ainda falta fazer para apoiar quem cuida e sobre a nossa responsabilidade coletiva para com estas pessoas.